O cinema faz pensar e somando-se a meia década de colaboração nesta revista, isso faz pensar mais ainda. Desta forma resolvi fazer um exercício mental utilizando a Filosofia Clínica. Optei por construir minha historicidade através de minha relação com o cinema. A historicidade, em Filosofia Clínica, é o relato de vida de uma pessoa contada por ela própria desde sua lembrança mais remota até o momento atual. Para tanto, entre alguns pensadores, utilizamos determinados conceitos elaborados por Hegel e Dilthey.
Voltando a vista ao meu passado vejo que a arte cinematográfica sempre esteve presente em minha vida. Sou filho de um cinéfilo, que quando garoto e as circunstâncias lhe permitiam, economizava para assistir aos seriados nas matinês dos cinemas em Belém, ouvi relato de dois que lhe são caros à lembrança: Os Tambores de Fu Manchu (The Drums of Fu Manchu – 1940), O caveira (1940).
Meu pai cresceu e mudou-se para Macapá onde compartilhou da vida intelectual da cidade, entre os vários movimentos participou da fundação do primeiro cineclube da capital amapaense. É desse tempo uma das melhores lembranças que possuo: assistir Tempos Modernos (Modern Times – 1936) em um cinema. Ver Charles Chaplin e suas peripécias em uma tela grande é impagável.
Por volta do início dos anos 70, do século passado, chegou com o prenuncio da copa de 74, chegou a televisão à Macapá a. Imaginem uma televisão sem programação das grandes redes, como o objetivo principal era a transmissão dos jogos da seleção brasileira, o restante da grade de programação era preenchida com os seriados, de cinema e televisão das décadas de 40 e 50. Isso me permitiu alguns seriados marcantes como: Cisco Kid (1950), Rin-Tin-Tin (1950), eram as matinês dentro de casa. Em 1975 chegamos à Poços de Caldas, cidade mineira, famosa por suas termas de água sulfurosa. Lembro de assistir filmes como Zorba, o Grego (1964) suas loucuras e alegria de viver. Em Poços existiam cinco cinemas dos quais me chamaram a atenção o São Luiz e o Vogue, com seus prédios estilo Art Déco e o Ultravisão o mais moderno e hoje o único cinema de rua. Nestes cinemas me recordo de filmes marcantes como Marcelino, Pão e Vinho (1955) no qual me despertou o interesse pela relação estabelecida entre o menino e Jesus, uma forma diferente de vivenciar a religiosidade, O Show Deve Continuar (1979) onde a morte é tratada de uma forma sublime; O Buraco da Agulha (1981) um filme que aborda a solidão e a relação conflituosa entre inimigos, ambientado no período da segunda guerra mundial.
Em 1984 mudança para Campinas, cidade que se me apresentava com novos e mais modernos cinemas, hoje todos extintos. Windson, Brasília, Ouro Verde, Carlos Gomes; todos passaram ou por uma ou todas as etapas descritas no Tapete Vermelho (2006); aqui também haviam os heróis da resistência cultural através de cines-clube como o Victória, Alquimia e o último a fechar suas portas em 2009, depois de 26 anos de existência, o Cine Paradiso, esses nos brindavam com filmes fora do circuito, como Van Gogh (1991), O Pescador de Ilusões (1991).
Em 1998 começo meus estudos em Filosofia Clínica. Algo que me cativou logo de início dessa nova forma de abordar a Filosofia foi uma relação de filmes para estudo que o prof. Lúcio Packter colocou ao final de seu livro Propedêutica (1ª ed. 1997), essas indicações vieram a influenciar uma pesquisa iniciada em conjunto com a colega Olga Hack, relacionando filmes com o ensino dessa matéria, o resultado foi um livro que está no prelo: Filosofia Clínica e Cinema: uma compreensão teórica e prática através de filmes.
No ano de 2006 iniciei minha colaboração com esta Revista, o que já me levou a assistir, nó mínimo aos 59 filmes comentados, buscando abordar os mais variados temas como as questões sobre a morte, fenomenologia, ética, sexualidade, idosos, religiosidade, pena de morte, existencialismo, entre tantos temas que o cinema nos proporciona, e é claro, como não poderia deixar de abordar sobre os Beatles, pois paixão não se explica, se vivencia e compartilha.
Para finalizar vou relatar a mais emocionante experiência com cinema que tive a oportunidade de vivenciar. Em julho de 2008 segui, juntamente com um grupo de trabalho de extensão universitária para Rondônia, lá iríamos trabalhar em três áreas, saúde, educação e ensino religioso. Nosso grupo ficou sediado em São Miguel do Guaporé, um período da manhã quando alguns de nós estávamos sem atividades, fomos conhecer o local onde estávamos hospedados, e lá descobrimos uma pequena tela para projeção. À noite quando o grupo se reuniu para a conversa, surgiu a ideia de realizar uma atividade que não constava em nosso cronograma, com a participação de todos pudemos realizar um “Cinema na Praça”, foram dois dias de construção em paralelo desse projeto. Até que ao final, defronte à Matriz colocamos um projetor, caixas de som. O público apareceu de todos os lugares, a população, em sua maioria rural, veio nos ônibus escolares, coisa que não era comum, sair à noite. Distribuição farta de pipoca e suco, como se preza em todo bom cinema, projetamos curtas do Anima Mundi e depois o filme Narradores de Javé (2003). Marcou-me profundamente o comentário de uma amiga, Joice Barboza, que chegou com uma alegria estampada no rosto e disse apontando para a platéia que assistia ao filme: “Você viu como os olhinhos estão brilhando?” E percebi também os rostos de todos os colegas do grupo iluminados.
DICA: A vivência em Rondônia pode ser verificada nesses dois links. Resultado de filmagens realizadas nesse período. Encontros e Desencontros na Amazônia Rondoniense (2008) – dir. Gustavo Cepolini
parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=E6qqog873J8&feature=relate
Revista Filosofia ano V nº 60