Filosofia e Cinema

Artigos que são publicado na coluna “Para Refletir” da Revista “Filosofia, Ciência & Vida” da Ed. Escala

16/1/12

Sonhos

Saudade dos cineclubes. Campinas já teve alguns belos: Alquimia, Victória e o último a fechar suas portas, o Cine Paradiso. Agora, eles estão restritos a algumas universidades e no seu entorno, distante do centro urbano. Falo de cineclubes, pois, foi num deles que tive o prazer de assistir “Sonhos” de Kurosawa. Este filme é uma colcha de retalhos onde cada pedaço de tecido é um sonho que o diretor Akira Kurosawa (1910-1998) teve durante sua vida. De forma geral é possível perceber nuances da cultura nipônica, como a questão do respeito ao outro Sol em meio à chuva, aos deuses O pomar de pêssegos e A nevasca, o temor atômico (uma profecia de Kurosawa referente às usinas nucleares) Monte Fuji vermelho e O demônio chorão, aceitação da morte O túnel  e O povoado dos moinhos, entre tantos temas que provocam em nós a reflexão. Destaco dois sonhos: Corvos onde passeamos, conduzidos por um estudante de artes, pelos conceitos e quadros de Van Gogh, Cada cena é uma tela vivificada, um lindo passeio estético. O povoado dos moinhos, onde Kurosawa sintetiza sua mensagem de gratidão pela vida, e pelo respeito à natureza, um mochileiro recebe o ensinamento de um idoso: “Hoje em dia as pessoas esquecem de que elas são só uma parte da natureza. Destroem a natureza da qual nossa vida depende. Acham que sempre podem criar algo melhor. Sobretudo os estudiosos. Eles podem ser inteligentes, mas a maioria não entende o coração da natureza. Eles só criam coisas que acabam tornando as pessoas infelizes. Mesmo assim orgulham-se tanto de suas invenções. E, o que é pior, a maioria das pessoas também se orgulha. Elas as vêem como milagres. Idolantram-nas. Elas não sabem, mas estão perdendo a natureza. Não percebem que vão morrer. As coisas mais importantes para os seres humanos são ar limpo e água limpa e as árvores e plantas nos dão isso. Tudo está sendo sujado, poluído para sempre. Ar sujo, água suja, sujando o coração dos homens.”

DICA: http://www.akirakurosawa.com (sítio virtual sobre o diretor Kurosawa) e http://www.vangoghgallery.com (onde encontramos toda a obra produzida por Vincent Van Gogh)

Revista Filosofia ano V nº 66

Ficha Técnica
Título original:  Yume

Direção Akira Kurosawa

Ano de produção 1990 (Japão)

Duração 119 min.

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Nem Gravata, Nem Honra

Homens e mulheres são tão diferentes assim? Marcelo Masagão, o mesmo diretor de Nós que aqui estamos por vós esperamos (1998) sai a campo na tentativa de compreender a diferença entre homens e mulheres, escolhe uma cidade do interior de São Paulo, Cunha, 22.508 habitantes. Entrevista seus moradores para saber o que eles sabem sob as características que distingue o homem da mulher. A questão de gênero será assim analisada não pela lente dos estudiosos, antropólogos, mas sim do próprio homem. Masagão faz um trabalho interessante com os depoimentos colhidos, ele passa para a própria pessoa se ver, e com isso as reações são surpreendentes diante de um “espelho” cinematográfico; bem como, também passa esses depoimentos a outras pessoas. O movimento de ir ao próprio mundo para se conhecer e, também, ir ao mundo do outro, e, em ambos, se espantar. O registro desses movimentos também faz parte do documentário.

 

DICA: “A Escuta e o Silêncio” do prof. Will Goya. Um livro sobre o exercício da alteridade e da interioridade - http://www.willgoya.com/conteudo/downloads/70_48.pdf

 

Revista Filosofia ano V nº 65

Ficha Técnica
Direção Marcelo Masagão

Ano de produção 2001 (BRA)

Duração 70 min.

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RepoMen – O resgate de órgãos

Assistindo uma propaganda de trânsito onde uma pessoa comenta que antes não tinha paciência com cadeirantes até o dia que sofreu um acidente e ficou paraplégica, a partir desse momento percebeu a dificuldade de locomoção nos centros urbanos para um portador de deficiência física e a falta de respeito por parte de alguns motoristas para com ele, agora cadeirante.  De certa forma essa vivência empírica do mundo do outro, enxergar o outro como verdadeiramente outro e não como o que quero enxergar, parece ser um exercício difícil. Este aprendizado de alteridade é perceptível no filme RepoMen. Remy (Jude Law) e Jake (Forest Whitaker) são dois “coletores”, cuja função é recuperar órgãos artificiais comprados por pacientes que não tem alternativa diante de sua situação de vida, assim, são convencidos a adquirirem o órgão artificial por um valor altíssimo, quando falha o pagamento da prestação Remy e Jake entram em ação para retomar a peça. Isso ocorre frequentemente até o dia em que Remy recebe um coração artificial e não tem condições de continuar pagando, então começa a perceber que os outros não são apenas número e sim pessoas, talvez essa percepção seja tarde demais.

 

Dica: A arte de compartilhar (2007), de Idalina Krause. Neste livro é possível perceber o exercício de alteridade, através do movimento dialético entre a recíproca de inversão e a inversão, caminhando para uma síntese terapêutica.

 

Revista Filosofia ano V nº 64

Ficha Técnica
Título original: Repo Men

Direção Miguel Sapochnik

Ano de produção 2010 (EUA/CAN)

Duração 119 min.

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PL 122, Milk e Claudia

Vamos começar a coluna de forma diferente, não vamos falar de filmes, não por enquanto, mas do Projeto de Lei 122, que na verdade é uma proposta que vem complementar a Lei 7.716/89, que trata como crime o preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Ora, convenhamos, o PL 122 pretende ampliar a proteção aos que sofrem preconceitos, ou seja, busca proteger contra a discriminação de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Apesar de parecer, a primeira vista, que o problema está na questão da criminalização da homofobia, ele, na verdade, está literalmente mais embaixo, no Art.20 que transforma em crime a incitação à discriminação, o que ameaça o púlpito/palco/palanque de certos religiosos que espumam seu ódio ao próximo, enquanto na Bíblia se prega o amor. Ou como disse o Dep. Fed. Jean Wyllys (PSOL/RJ) “O PLC 122 não atenta contra a liberdade de expressão de quem quer que seja, apenas assegura a dignidade da pessoa humana de homossexuais, o que necessariamente põe limite aos abusos de liberdade de expressão que fanáticos e fundamentalistas vêm praticando em sua cruzada contra LGBTs.” Essa luta me fez recordar dois filmes, ambos retratam a vida de dois militantes dos direitos dos homossexuais, o primeiro trata de Harvey Milk (1930-1978), primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um cargo público nos Estados Unidos, torna-se um ativista após vivenciar as constantes perseguições e mortes de homossexuais em San Francisco; o segundo é o documentário que retrata a vida e a militância da brasileira ativista dos direitos LGBTs, Claudia Wonder (1955-2010). É interessante perceber como a Historicidade retratada nos dois filmes permitem uma compreensão do porque Milk e Claudia tornaram-se ativistas do movimento gay.

 DICA: Site do Deputado Federal Jean Wyllys - http://jeanwyllys.com.br

 

Revista Filosofia ano V nº 63

Fichas Técnicas


Título original: MILK

Direção Gus Van Sant

Ano de produção 2008 (EUA)

 

 

Título original: Meu amigo Claudia

Direção Dácio Pinheiro

Ano de produção 2009 (BRA)

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O Lapa Azul

É interessante perceber como um filme pode provocar tantas reminiscências e tantos outros movimentos existenciais. Após assistir ao filme O Lapa Azul, me veio à memória as histórias relatadas pela minha amiga Salete de seu pai, José Guido Sobrinho, ex-combatente da FEB, que completou 90 anos no último dia 14 de julho. “Em Montese – ela disse – o pelotão do meu pai ficou 72 horas sob fogo ininterrupto, três dias e três noites. Não tinham como dormir e nem comiam direito, só beliscavam alguma coisa da ração dada pelos americanos”. Histórias como essa e com mais detalhes, que não cabem neste espaço, podem ser vistas no filme citado, um dos melhores a abordar o tema, privilegiando os depoimentos dos ex-combatentes que participaram do III Batalhão do 11º Regimento de Infantaria de São João Del Rei/MG. Vale lembrar que o Brasil foi levado a enviar tropas graças à mobilização da sociedade, principalmente dos estudantes, contrariando a postura da ditadura Vargas, simpática ao Eixo, de que o Brasil permanecesse neutro no conflito.

DICAS: Três sites para quem se interessa pela participação brasileira na II Guerra Mundial. O primeiro é do próprio filme, www.olapaazul.com; o segundo, criado por Roberto Graciani, é um dos mais completos sobre a presença brasileira no teatro de guerra, www.anvfeb.com.br e o terceiro trata da aviação militar brasileira nos campos de batalha italianos, www.sentandoapua.com.br. No link http://www.laifi.com/laifi.php?id_laifi=1331 é possível conhecer um pouco da atuação da FEB.

Revista Filosofia ano V nº 62

 

Ficha Técnica
Direção Durval Jr.
Ano de produção 2007 (Brasil)
Duração 60 min.
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Nascido em Bordéis

Um filme que espero mexer tanto com vocês como mexeu comigo. Os documentaristas Zana Briski e Ross Kauffmann realizaram um trabalho de intervenção social através de uma oficina de fotografia para algumas crianças indianas, filhas de prostitutas, moradoras do bairro da Luz Vermelha, em Calcutá. Tia Zana, como as crianças lhes chamam, busca oferecer-lhes uma oportunidade para que escapem de um destino já traçado, a prostituição, através de uma arma simples: a máquina fotográfica. O ato de fotografar desperta nas crianças um meio de expressão, os olhos das crianças olham sua circunstância e nos mostram através da suas fotografias. O filme relata também a busca dos produtores por uma melhor forma de auxiliar essas crianças, e a educação, como sempre, será essa ponte. Vendo as fotos produzidas, acabamos concordando com Aristóteles, o belo é inerente ao homem, basta lhe oferecer oportunidade de expressão.  Avijit, uma das crianças, sintetiza a amizade daquele grupo, são “uma alma em nove corpos”.

 

DICA: O site do projeto Crianças com Câmeras www.kids-with-cameras.org é a continuação do trabalho desenvolvido. O título da página “Crianças com câmeras são crianças com destino”. Visitem.

 

Revista Filosofia ano V nº 61

Ficha Técnica
Título original: Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids

Direção Zana Briski/ Ross Kauffman

Ano de produção 2004 (IND/EUA)

Duração 85 min.

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Filosofia, Cinema & Vida

O cinema faz pensar e somando-se a meia década de colaboração nesta revista, isso faz pensar mais ainda.  Desta forma resolvi fazer um exercício mental utilizando a Filosofia Clínica. Optei por construir minha historicidade através de minha relação com o cinema. A historicidade, em Filosofia Clínica, é o relato de vida de uma pessoa contada por ela própria desde sua lembrança mais remota até o momento atual. Para tanto, entre alguns pensadores, utilizamos determinados conceitos elaborados por Hegel e Dilthey.

Voltando a vista ao meu passado vejo que a arte cinematográfica sempre esteve presente em minha vida. Sou filho de um cinéfilo, que quando garoto e as circunstâncias lhe permitiam, economizava para assistir aos seriados nas matinês dos cinemas em Belém, ouvi relato de dois que lhe são caros à lembrança: Os Tambores de Fu Manchu (The Drums of Fu Manchu – 1940), O caveira (1940).

Meu pai cresceu e mudou-se para Macapá onde compartilhou da vida intelectual da cidade, entre os vários movimentos participou da fundação do primeiro cineclube da capital amapaense. É desse tempo uma das melhores lembranças que possuo: assistir Tempos Modernos (Modern Times – 1936) em um cinema. Ver Charles Chaplin e suas peripécias em uma tela grande é impagável.

Por volta do início dos anos 70, do século passado, chegou com o prenuncio da copa de 74, chegou a televisão à Macapá a. Imaginem uma televisão sem programação das grandes redes, como o objetivo principal era a transmissão dos jogos da seleção brasileira, o restante da grade de programação era preenchida com os seriados, de cinema e televisão das décadas de 40 e 50. Isso me permitiu alguns seriados marcantes como: Cisco Kid (1950), Rin-Tin-Tin (1950), eram as matinês dentro de casa. Em 1975 chegamos à Poços de Caldas, cidade mineira, famosa por suas termas de água sulfurosa. Lembro de assistir filmes como Zorba, o Grego (1964) suas loucuras e alegria de viver. Em Poços existiam cinco cinemas dos quais me chamaram a atenção o São Luiz e o Vogue, com seus prédios estilo Art Déco e o Ultravisão o mais moderno e hoje o único cinema de rua. Nestes cinemas me recordo de filmes marcantes como Marcelino, Pão e Vinho (1955) no qual me despertou o interesse pela relação estabelecida entre o menino e Jesus, uma forma diferente de vivenciar a religiosidade, O Show Deve Continuar (1979) onde a morte é tratada de uma forma sublime; O Buraco da Agulha (1981) um filme que aborda a solidão e a relação conflituosa entre inimigos, ambientado no período da segunda guerra mundial.

Em 1984 mudança para Campinas, cidade que se me apresentava com novos e mais modernos cinemas, hoje todos extintos. Windson, Brasília, Ouro Verde, Carlos Gomes; todos passaram ou por uma ou todas as etapas descritas no Tapete Vermelho (2006); aqui também haviam os heróis da resistência cultural através de cines-clube como o Victória, Alquimia e o último a fechar suas portas em 2009, depois de 26 anos de existência, o Cine Paradiso, esses nos brindavam com filmes fora do circuito, como Van Gogh (1991), O Pescador de Ilusões (1991).

Em 1998 começo meus estudos em Filosofia Clínica. Algo que me cativou logo de início dessa nova forma de abordar a Filosofia foi uma relação de filmes para estudo que o prof. Lúcio Packter colocou ao final de seu livro Propedêutica (1ª ed. 1997), essas indicações vieram a influenciar uma pesquisa iniciada em conjunto com a colega Olga Hack, relacionando filmes com o ensino dessa matéria, o resultado foi um livro que está no prelo: Filosofia Clínica e Cinema: uma compreensão teórica e prática através de filmes.

No ano de 2006 iniciei minha colaboração com esta Revista, o que já me levou a assistir, nó mínimo aos 59 filmes comentados, buscando abordar os mais variados temas como as questões sobre a morte, fenomenologia, ética, sexualidade, idosos, religiosidade, pena de morte, existencialismo, entre tantos temas que o cinema nos proporciona, e é claro, como não poderia deixar de abordar sobre os Beatles, pois paixão não se explica, se vivencia e compartilha.

Para finalizar vou relatar a mais emocionante experiência com cinema que tive a oportunidade de vivenciar. Em julho de 2008 segui, juntamente com um grupo de trabalho de extensão universitária para Rondônia, lá iríamos trabalhar em três áreas, saúde, educação e ensino religioso. Nosso grupo ficou sediado em São Miguel do Guaporé, um período da manhã quando alguns de nós estávamos sem atividades, fomos conhecer o local onde estávamos hospedados, e lá descobrimos uma pequena tela para projeção. À noite quando o grupo se reuniu para a conversa, surgiu a ideia de realizar uma atividade que não constava em nosso cronograma, com a participação de todos pudemos realizar um “Cinema na Praça”, foram dois dias de construção em paralelo desse projeto. Até que ao final, defronte à Matriz colocamos um projetor, caixas de som. O público apareceu de todos os lugares, a população, em sua maioria rural, veio nos ônibus escolares, coisa que não era comum, sair à noite. Distribuição farta de pipoca e suco, como se preza em todo bom cinema, projetamos curtas do Anima Mundi e depois o filme Narradores de Javé (2003). Marcou-me profundamente o comentário de uma amiga, Joice Barboza, que chegou com uma alegria estampada no rosto e disse apontando para a platéia que assistia ao filme: “Você viu como os olhinhos estão brilhando?” E percebi também os rostos de todos os colegas do grupo iluminados.

 

DICA: A vivência em Rondônia pode ser verificada nesses dois links. Resultado de filmagens realizadas nesse período. Encontros e Desencontros na Amazônia Rondoniense  (2008) – dir. Gustavo Cepolini

parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=Wirh9SmoomA&feature=autoshare

parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=E6qqog873J8&feature=relate

Revista Filosofia ano V nº 60

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23/6/11

Politicamente incorreto

O ano era 1996, nos Estados Unidos o presidente Bill Clinton concorre à reeleição. Também é candidato a mais um mandato o senador Jay Bulworth (Warren Beatty), que não se encontra bem nas pesquisas. Após receber uma “colaboração” do lobby das seguradoras – uma apólice de seguro de vida no valor de 10 milhões de dólares – Bulworth contrata um assassino para por fim à própria vida e desta forma garantir o futuro de sua filha. O filme inicia com suas propagandas eleitorais, promessas e propostas como defesa da família, corte no orçamento, redução dos impostos. Você já ouviu isso alguma vez? O fim da ação afirmativa, política norte-americana surgida na década de 1960 com o presidente John Kennedy, é um dos motes de Bulworth, que afirma ser a cota para negros um privilégio que precisa ser extinto, argumenta que não é possível conceder privilégios a uma raça em detrimento de outra, a discriminação no passado não justifica a discriminação no presente, garante ele. Ao debater com a comunidade negra, em uma igreja na periferia, diante do inevitável – sua morte, Bulworth começa a responder o que de fato acontece nos corredores da política: as manobras para que as grandes corporações não sejam prejudicadas em detrimento da população, porque os políticos aparecem diante das calamidades e depois de apaziguar a população desaparecem, etc. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Dica do Sócrates: os homens de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pela honra; porque não querem ser considerados mercenários, exigindo abertamente o salário correspondente à sua função, nem ladrões, tirando dessa função lucros secretos; também não trabalham pela honra, porque não são ambiciosos. (A República, Platão)

Revista Filosofia ano V nº 59

Ficha Técnica
Título original: Bulworth

Direção Warren Beatty

Ano de produção 1998 (EUA)

Duração 108 min.

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Rabugentos e mentirosos

Imagine Karl Marx tentando convencer William James a pensar coletivamente e a observar além de seus próprios problemas. Esta é uma das leituras possíveis. Na relação entre os idosos Nat Mayer (Walter Matthau) e Midge Carter (Ossies Davis), o primeiro um antigo militante da esquerda comunista e o segundo um síndico à beira da demissão em busca um melhor acordo para si diante do inevitável, fica claro o conflito ideológico. Enquanto que para Midge as idéias e atos de Nat só teriam valor se servissem à solução imediata do problema pelo qual passava, daí a comparação com James; Nat conclama Midge à defesa das ideias, pois elas são melhores que as pessoas que as tiveram, afinal, o conflito [de classe] continua, como diria Marx. Eles se conhecem no parque da cidade e entre idas e vindas dessa relação, Midge afirma que toda a fala de Nat é mentirosa, este devolve afirmando não ser mentira, mas alterações, pois, “às vezes a verdade não encaixa. Puxo um pouco aqui, estico um pouco ali, até que sirva”, afirma que a verdade para o idoso é esmolar comida nas portas do fundo de um hotel. O filme nos possibilita outras abordagens além das citadas, como por exemplo, a questão da violência contra o idoso, das relações de classe, a questão da identidade, dos direitos do consumidor. Como branda Nat, no início da película: “Consumidores! Consumidores! Protestem antes que sejam consumidos!”

DICA: Durante o filme ouvimos falar de duas pioneiras lideranças trabalhistas norte-americanos: Clara Lemlich (1886-1982) líder da greve maciça de 20.000 trabalhadores em Nova Iorque no ano de 1909 e lutadora dos direitos do consumidor; e Ben Gold (1898-1985) à frente da greve de 1926, conseguiu 10% de aumento e jornada de 40hs, também na cidade de Nova Iorque.

Revista Filosofia ano V nº 58

Ficha Técnica
Título original: I’m not Rappaport

Direção Herb Gardner

Ano de produção 1996 (EUA)

Duração 136 min.

criado por filosofiacinema    22:05:06 — Arquivado em: Sem categoria

13/4/11

M*A*S*H*

O suicídio parece ser a melhor solução para os problemas. Bem, pelo menos é isso que o cirurgião dentista Walt “Painless” (John Chuck) deixa transparecer. Optar pela morte é o caminho encontrado por ele diante da “descoberta” de sua homossexualidade, “Se um homem não é mais um homem, o que é que lhe sobra que valha a pena viver?”, pergunta Walt retoricamente a Hawkeye (Donald Sutherland). Após este questioná-lo, Walt confessa ter falhando em uma relação sexual, e mais, que a imagem que ele possuía de Don Juan é, segundo um livro, um disfarce para sua homossexualidade latente. “Eu li sobre isso, é só um disfarce”, afirma. As fórmulas lançadas pelos livros têm um peso enorme em algumas pessoas. Diante do inevitável, cabe aos seus amigos fazerem a última e santa ceia. O suicídio é só um dos tantos pontos levantados pelo filme de Altman. O diretor criou vários esquetes referentes à atuação dos médicos, supostamente nos fronts da Coréia; no entanto, o filme todo tem as características do Vietnã. Uma forma de guerrilha que Altman criou para denunciar o absurdo dessa guerra. 

 

CURIOSIDADE: M*A*S*H* - Mobile Army Surgical Hospital (Hospitais Cirúrgicos Móveis do Exército). Foi a forma encontrada pelos militares de evitar uma mortalidade alta entre os soldados norte-americanos e, ao mesmo tempo, recuperá-los para retornarem o mais rápido à frente de batalha.

 

Revista Filosofia ano V nº 57

 

 

Ficha Técnica
Direção Robert Altman

Ano de produção 1970 (EUA)

Duração 116 min.

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